

um "cauSo" esqueciDo: as memórias do Museu do Folclore da EMBAP e os debates sobre Cultura Popular


Nosso país nos anos 50 do século XX é um "Era uma vez",
uma frase de três palavras onde se conta uma história, talvez milhares de histórias, talvez… Todas as histórias! Mas, quantas ainda estão para serem contadas?
Quantas devem ser resgatadas de algum lugar ou alguém?
roSto do brAsil
Nosso país nos anos 50 do século XX é um Brasil de muitos “Brasis”. Começa a fase de desenvolvimentismo brasileiro, sua fase industrial, com árvores e florestas sendo derrubadas, enquanto fábricas são levantadas. Já se foi a Segunda Guerra, é o contexto de criação da ONU e UNESCO, já se levantaram as bandeiras mais diversas. Na Academia brasileira e em associações de pesquisas diversas, vários pensadores e pesquisadores começam a se preocupar com a integração dos estudos brasileiros no âmbito internacional: a “Cara do Brasil” é uma busca constante em nossa história.
A partir das diversas convenções da ONU e Unesco foram criadas redes de financiamento de projetos onde os países membros indicavam ou desenvolviam salvaguardas para tradições que eram consideradas por eles fundamentais para o entendimento da própria identidade nacional.

No Brasil, a proteção e o interesse pelo patrimônio cultural foram formalizados em 1937 com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atualmente IPHAN. Inicialmente, e por um longo período, os esforços foram predominantemente direcionados à preservação do patrimônio arquitetônico frequentemente, associado às elites econômicas e à proteção de bens relacionados à religião católica.
Entretanto, estudos na área do folclore e cultura popular já eram de grande volume, com nomes como Câmara Cascudo, os Modernistas como Mário de Andrade e já pela terra dos Abaporus de Tarsila, os irmãos Villas-Boas já lutavam pela constituição do Xingu e a Missão Francesa desembarcava parte no esforço de “modernização” da academia que levaria a criação da USP. A Casa Grande de Gilberto Freyre e As Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Hollanda reinventaram a imagem do país nos livros e teorias.
Com a grande urbanização que passava o país, um medo crescente do maior dos medos da História daquele tempo - e que possuímos até hoje - foi se transformando em objeto de pesquisa dos diversos grupos de folcloristas e autoridades: o Medo do Esquecimento.

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Foto: Dicionário Aurélio com a palavra FOLCLORE
Acervo: Pessoal dos autores
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o Folclore,
palavra de origem germânica e inglesa, expandida desde os estudos dos Irmãos Grimm no começo do século XIX, passou a ser um foco de coleta de diversos pesquisadores pelo Brasil. O país, nos idos dos anos 1950, se orgulhava de ser um dos primeiros a seguir a ideia da UNESCO nesta empreitada, era um esforço de conhecer e conhecer-se para a paz, de um mundo pós-guerra, fragmentado pelas duas potências da Guerra-Fria.
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O governo brasileiro, neste contexto, põe em prática através de personagens fundamentais como Edison Carneiro e do musicólogo Ricardo Almeida desenvolvem a Comissão Nacional do Folclore, fundada em 1947.
Foto: Congressistas presentes em Curitiba-PR durante o 2º Congresso Brasileiro de Folclore, 1953. Na foto José Loureiro Fernandes, Fernando Corrêa de Azevedo e outros congressistas.
Fonte: VELLOZO, Roselys. Comissão do Folclore, 50 anos


Já em 1958, durante o Governo Juscelino Kubitschek, é organizada a Campanha de Defesa pelo Folclore Brasileiro, ligado ao Ministério de Educação e Cultura da época, estipulando em cada estado uma comissão estadual, que reuniria os pesquisadores interessados no folclore que já pesquisavam sobre o tema.
Trata-se de um movimento nacional que durará até 1979, que passará por diversas fases, várias formas de interpretação do que hoje chamamos de cultura popular, o que naqueles tempos era o chamado folclore. Da mesma maneira, as vozes e os lugares onde se guardam estes vestígios foram os mais diversos, por diversas mãos, personagens, vozes e instrumentos.

Foto: Inauguração do Museu de Artes e Técnicas Populares (depois Museu do Folclore) de São Paulo. Na foto, Hélio Damante, representante do governador Carvalho Pinto, descerra a fita de inauguração do Museu, à sua direita estão Édison e Renato Almeida.
Fonte: VILHENA, Luís. Projeto e Missão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964


Um destes lugares de guarda, foi o efêmero Museu do Folclore da Embap (Escola de Músicas e Belas-Artes do Paraná) que durou de 1953 até 1962, e despertou as investigações de nossa equipe de museologia da mesma instituição, mais de sessenta anos depois.
Foto: Inauguração Museu do Folclore, EMBAP, 1953
Acervo: MIS-PR


VestiGioS
ParanÀ FolclóRico

Inauguração do Museu do Folclore da EMBAP em 1953.

Acervo: MIS-PR
o estado que avançava para o interior: abria-se estradas, ao mesmo tempo que conhecia-se, ou melhor, fazia a imagem de si mesmo, para o restante do Brasil. Eram os anos do governo de Bento Munhoz da Rocha (1905-1973) e os movimentos como o Paranista queriam forjar uma imagem de um estado com tradição antiga em diversos personagens, seja o indigena, o colono europeu, seja o pescador do litoral, o tropeiro (sendo os povos africanos excluídos desta fábula já nesta época), era uma imagem mítica de um Paraná Mítico, que queria igualmente se mostrar como desbravador, com todos os problemas que vemos hoje nesta narrativa.

Neste período de crescente interesse político e econômico na criação do passado paranaense, surge e se fortalece um movimento intelectual com grande interesse pelo folclore e pelas culturas populares. O Folclorismo paranaense surge de pesquisadoras e pesquisadores buscando usar as crenças, as danças, as músicas e as festas dos povos do estado como tijolos na sua construção da sua narrativa de Paraná.
Foto: Inauguração Museu do Folclore, EMBAP, 1953.
Fernando Azevedo, Bento Munhoz da Rocha e José Loureiro Fernandes.
Acervo: MIS-PR

ParaNa,
Era esse o contexto que celebrava, em 1953, o Centenário da Província do Paraná, ocasião que traria, entre outras coisas, a criação do Museu do Folclore da Escola de Música e Belas-Artes.
O Museu do Folclore teria uma vida breve, e seu acervo seria, ao longo das próximas décadas, perdido ou resgatado em diversos lugares, diversas vezes - mas apesar de sua brevidade, aquela instituição e seu então acervo são pontos pelos quais podemos saber mais sobre a história do folclore paranaense, sobre seus estudiosos, seus movimentos, e seu legado, 76 anos depois.
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Era esse o contexto que celebrava, em 1953, o Centenário da Província do Paraná, ocasião que traria, entre outras coisas, a criação do Museu do Folclore da Escola de Música e Belas-Artes.
O Museu do Folclore teria uma vida breve, e seu acervo seria, ao longo das próximas décadas, perdido ou resgatado em diversos lugares, diversas vezes - mas apesar de sua brevidade, aquela instituição e seu então acervo são pontos pelos quais podemos saber mais sobre a história do folclore paranaense, sobre seus estudiosos, seus movimentos, e seu legado, 76 anos depois.

Foto: Viola, Costeirinha, b. de Paranaguá, 1953
Acervo: MAE/UFPR
Para contar essa história, deve-se voltar, primeiramente, à 1948. quando é criada a Comissão Paranaense de Folclore (CPC).


Foto: Miniatura de canoa. Piaçaguera, b. de Paranaguá, 6 de Janeiro de 1953
Acervo: MAE/UFPR
Acervo: MIS-PR
A comissão estava inserida em uma grande rede nacional de organizações folcloristas, ligadas à Comissão Nacional do Folclore (CNF), criada no ano anterior, e foi responsável por eventos tratando do folclore paranaense. Alguns dos principais personagens deste período são contados em nossas biografias e entrevistas.


MemóRias:
FolcloristaS no ParaNá
Vitamina é uma figura. Ele é uma daquelas pessoas que pode passar horas seguidas contando suas histórias e nós, por horas seguidas às ouvindo. Nasceu Henrique Paulo Schmidlin, mas preferimos Vita. Subiu o Pico Marumbi inúmeras vezes e provavelmente andou em todas as trilhas da Serra do Mar. Mas aqui preferimos mostrar suas façanhas como amigo, principalmente da Roselys Vellozo Roderjan, uma das personagens principais do nosso “causo”.
Vitamina foi um grande personagem em nossa pesquisa, topou almoçar e passar uma tarde de sábado com alguns de nós. E no futuro, esperamos continuar contando suas histórias e piadas internas, por que agora nós também somos parte da história do Vita.
RoselYs,
Para mais informações e sobre a pesquisa de Roselys Velloso Roderjan sobre o Fandango e folclore paranaense, veja esta entrevista da pesquisadora para a Rádio Estadual do Paraná https://youtu.be/dP8oMImMs1E?si=_W6UrF_Fk6rWImxz
era folclorista, fortemente envolvida no estudo da música paranaense. Era também musicóloga, e se tornaria no ano seguinte, em 1949, professora de música na EMBAP. A Escola havia sido criada anos antes, e estava em 1949 sendo finalmente oficializada, quando um de seus fundadores, Fernando Correa de Azevedo, folclorista que, na época, estudava e colecionava o fandango e seus artigos na baía de Paranaguá, assume a direção do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação de Cultura, cargo até então ocupado pelo médico e antropólogo José Loureiro Fernandes, importante figura no meio cultural e acadêmico paranaense, que na época se ocupava com diversas escavações pelo Paraná.

José Loureiro havia ocupado no ano anterior a direção da secretaria em si, que agora englobava o Museu Paranaense, principal museu do Paraná na época, ao qual buscava juntar em um grande projeto de museu, instituição e universidade (no caso, com a UFPR).

Para a relação entre Loureiro Fernandes e os museus, segue o link da Mesa Redonda promovida pelo Canal de Antropologia e Arqueologia da UFPR em 2017 sobre o tema https://youtu.be/RdMlTx5RbI0?si=T9WL8RM0N4tuhGRz
Acompanhe o canal do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) para ver os assuntos estudados hoje pelos pesquisadores
oS FolcloRistas,
Roselys, José loureiro e Fernando Corrêa serão, então, os principais folcloristas da cena paranaense que levaria à criação do Museu do Folclore. Neste momento, eles continuariam seus estudos e empreendimentos - até 3 anos depois, quando Fernando Corrêa envia a José Loureiro uma lista de materiais de folclore, que pensava serem de interesse para estudo.
Fernando havia sido, neste ano, nomeado diretor da seção de folclore do Instituto de Pesquisa da Faculdade de Filosofia da Universidade do Paraná, seção esta, também recém criada por José Loureiro. Loureiro, também era seu então diretor, que era nesse mesmo ano, também, secretário geral da comissão paranaense de folclore, ainda sob direção de Roselys. Ao mesmo tempo, entretanto, iniciava-se uma discussão;
o que é o estudo do folclore, e onde ele se encaixa? o que é, afinal, folclore?
MestRe aorElio
Mestre de fandango, folia do Divino Espírito Santo, Boi de Mamão e terço cantado. Aprendeu a construir instrumentos musicais aos 9 anos com seu avô, e hoje é um construtor de instrumentos caiçaras. É luthier, músico e mestre da cultura caiçara premiado pelo Ministério da Cultura por suas atividades no universo da cultura popular. Aorelio também é diretor artístico da Associação de Cultura Popular Mandicuera e fundador, idealizador e músico da Orquestra Rabecônica do Brasil.
Saiba mais sobre a conversa que tivemos com o Mestre Aorélio! Aqui


FOTO: FRAGMENTO DO DISCURSO DE RENATO ALMEIDA NA INAUGURAÇÃO DA SEMANA NACIONAL DE FOLCLORE, MACEIÓ, 1952
Acervo: MAE/UFPR








